sexta-feira, 14 de julho de 2017

O despertar do Leviatã (Considerações sobre a Revolução)






A história desapaixonada do violento surto jacobino não deixa margem para dúvidas, a Revolução Francesa matou mais num ano do que a Inquisição Espanhola e Romana em três séculos (1) e foi mais sanguinária do que as guerras religiosas. E quem julga (ingenuamente) que consubstanciou alguma "justiça social" em nome da liberdade e da igualdade desengane-se, dos mortos (assassinados) na guilhotina, apenas 8% eram aristocratas, enquanto que mais de 30% provinham de classes populares, e mais de 297.000 assassinados em nome da revolução provinham de classe-média ou classe-média baixa (2).

Em 1793 (como o imortal romance de Victor Hugo também recordou) mais 10.000 vendeanos foram massacrados numa guerra contra as injustiças perpetradas pelo governo da revolução (o mundo de justiça prometido jamais vingaria) e, nos dias seguintes à guerra, o massacre continuou. No total, contabilizaram-se cerca de 250 a 300 mil mortos (o número não é pacífico mas não obscurece a chacina e o genocídio levados a cabo) nos campos da Vendeia, o que equivale a mais um terço dos habitantes da província.

A análise de Tocqueville (3), recuperada por Furet no século XX, é uma invocação necessária, afinal a revolução apenas acelerou e consolidou o processo que a monarquia tinha iniciado (e não foi uma ruptura, ou a construção de um mundo novo rousseauniano ao estilo do "bom selvagem", como poeticamente tentam fazer crer),a revolução recrudesce no quadro da centralização e burocratização administrativa e na destruição da sociedade de ordens (análise onde Maurras falhou). A maquinaria administrativa tinha sido inventada pela monarquia absoluta e agora, simplesmente, era controlada pelos "republicanos" revolucionários que apenas souberam ir mais longe na centralização, proclamando a "nação una e indivisível". Por exemplo, uma novidade da revolução estava na criação de um exército nacional, era o próprio estado quem mobilizava milhões para a guerra e com esse exército, primeiro os jacobinos, depois Napoleão, aterrorizariam a Europa.

Ao mesmo tempo, ali nasceu uma fórmula nova que bem ensinou a modernidade. A linguagem reinventada como propaganda, a mobilização das massas, as sementes das ideologias modernas (liberalismo, socialismo, comunismo, fascismo) teriam ali inspiração. Um poder totalitário futuro avizinhava-se apoderando-se do objecto concebido na teorização do iluminismo e na crença da supremacia da nação que substituiu o rei na hierarquia do estado. Um estado todo-poderoso emergindo como nação(4): um estado que tudo controla, tudo decide, sem corpos intermédios que lhe façam frente, sem contra-poder para impedir a sua gula insaciável, que tudo determina, tudo legisla, em torno de si tudo gira, fora de si nada vive.

Tocqueville, na sua obra magna "O Antigo Regime e a revolução", obra desapaixonada e livre de preconceitos tão profundamente incisiva no fenómeno revolucionário que abalou a Europa e cuja análise ainda hoje serve de referência, cita a observação de Mirabeau, em carta a Luís XVI. Quando confrontado com a revolução, então derrubando todas as instituições e todos os costumes que tinham mantido a hierarquia e as regras da sociedade, o aristocrata (ainda que liberal e ainda que maçon) fez observar ao seu soberano como podiam jogar com a situação em seu favor, dizendo "é evidentemente favorável ao governo monárquico" e acrescenta de forma lapidar: "A ideia de formar uma só classe de cidadãos teria agradado a Richelieu: esta superfície igual facilita o exercício do poder. Alguns reinos de um governo absoluto não teriam feito tanto em prol da autoridade real que este único ano da Revolução."

Claro que Mirabeau não previu a dimensão catastrófica e anárquica do fenómeno, mas não deixa de ser interessante como determinou a essência. Que magnífico mundo criou a revolução em nome da qual os franceses mandam foguetes e fazem tinir as esporas na Avenida dos Campos Elísios? Afinal, como analisou Tocqueville, a revolução, no efervescer da turba, limitou-se a substituir a aristocracia por um corpo de funcionários, os privilégios locais substituí-os pela uniformidade das regras, a diversidade dos poderes pela unidade de governo e, socialmente atiçou as invejas, as vendetas particulares, as ambições da burguesia e dos banqueiros que financiaram a catástrofe. Os pobres e desprotegidos, os camponeses e os trabalhadores, outrora livres nas suas corporações e nas suas ordens, com o tempo ficariam subjugados a um poder, quantas vezes mais cruel do que o antigo (veja-se o massacre de milhares camponeses na Vendeia). A revolução foi, ao mesmo tempo, o seu libertador e o seu tirano, foi a esperança e as trevas.

A revolução francesa fez poderoso e indestrutível este Leviatã que hoje nos subjuga... Mas Mirabeau tinha razão numa coisa, faria sem dúvida inveja a Richelieu...


(1) (os dados são de Samuel Henry Kamen do livro "The Spanish Inquisition - a Historical Revision",Yale University Press, 27/05/2014 )
(2) (os dados são oferecidos por Kuehnelt-Leddihn, Erik, "Operation Parricide: Sade, Robespierre & the French Revolution").
(3) TOCQUEVILLE, Alexis, "O Antigo Regime e a Revolução" editora UNB, tradução de Yvonne Jean.
(4) Gracchus Babeuf (1760-1797) foi um dos inspiradores do poder do Estado para refazer a sociedade, esse mesmo estado todo-poderoso deveria controlar toda a economia para superar a exploração capitalista, antecipou Karl Marx e Lenine.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Não conformar com o século




"E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."

Romanos 12:2

terça-feira, 14 de março de 2017

A infâmia

A campanha infame para difamar a Nova Portugalidade ficará para os anais como uma das mais sujas e ridículas de sempre. Ali houve conluio e ajuste de contas da Associação de Estudantes, ali houve a hipocrisia e cobardia do director que num momento ora conhecia (e reconhecia) a NP e noutro momento já assumia desconhecer o grupo, o mesmo, num email dizia ter cancelado a conferência e noutro comunicado já dizia apenas ter adiado. A sociedade civil depressa seria assolada com os jornalistas a deturpar ideias e a confundir informações numa guerra absurda para alimentar ódios. A (extrema-)esquerda com os trejeitos totalitários não perdeu a oportunidade de revelar o que de pior há na ideologia do politicamente correcto e constatou o predomínio do pensamento único dentro da academia. 
Tudo porque o orador era Jaime Nogueira Pinto, assumido intelectual da direita? Não surpreende que a extrema-esquerda viva agarrada aos fantasmas do passado, sem os quais perderá todas as causas. A quem poderá chamar "fascista" sem o temor levantado pela imagem de Salazar? Sem ideias novas, sem força, sem capacidade para se reinventarem, além dos "amanhãs que cantam", o folclore começa a cair no entorpecimento e as ideias a petrificar. 
Pior é descobrir as proporções do escândalo. A Assembleia da República e o Presidente a pronunciarem-se sobre um assunto que compete à Universidade resolver. Aqui o público encontrou o espectáculo delicioso e não perdeu a oportunidade de avançar com tochas e forquilhas contra os "fascistas" e adoradores do salazarismo. É ridícula a campanha de difamação de uma página de facebook sem associações ou conotações políticas, sem forma ideológica, onde os autores provêm de várias famílias políticas. Que uma página dedicada a divulgar a cultura e a história portuguesa seja maculada na fogueira dos novos inquisidores espanta, não será contudo inverossímil dado não subscrever as teorias históricas culpabilizadoras com que certa esquerda ideológica alimentou várias gerações. Persistir numa historiografia positivista como foi a republicana, ou numa historiografia materialista como quer certa esquerda, é bloquear o avanço do pensamento. Persistir numa auto-flagelação para redimir o passado, acusando o próprio povo a que pertencemos de todos os crimes revela o ódio que os portugueses têm a si mesmos. Esse ódio frutifica em campanhas de inveja, em ajuste de contas e em vinganças, como não deixou de ser o caso. 
A NP tentou desfazer mitos, acabou acusada de colonialismo, tentou procurar a riqueza do nosso património, tentou orgulhar a singularidade portuguesa, acabou acusada de nacionalismo e xenofobia. Ridículo! De associação cultural acabou conotada com a extrema-direita, da qual em vários comunicados, e em entrevista explicativa, se dissociou. Mas como disse um certo estadista (vocês bem conhecem) "politicamente o que parece é". Portanto se aos olhos da sociedade civil e da opinião pública a NP parece todas essas coisas, então, mesmo não sendo nada disso, realmente é. Realmente parece tudo aquilo que não é.  Com a ajuda do jornalismo pasquineiro, mais dado à má língua e à contra-informação, poderemos agradecer esta tragédia. 
Parece ate que a NP tem milícias neo-nazis - pasmem-se! Admirável o que uma página registada no facebook pode fazer. O ridículo prossegue. E o circo não vai parar por aqui, ainda teremos muito para ouvir nos próximos dias. A boa telenovela será o prelúdio de um fim, a velha extrema-esquerda sairá aleijada. Que a Nova Portugalidade inspire um tempo novo.  

quarta-feira, 8 de março de 2017

Em jeito de preâmbulo

Deificando os princípios, esbatendo as ilusões do século, derreando os falsos dogmas da modernidade, escrevendo em nome daquelas três verdades vencidas que fizeram a grandeza de Portugal: Deus, Pátria e Rei. 


"Portugal nasceu Monarquia e fez-se em Monarquia - durante sete séculos. Um século de Democracia não extinguiu nem podia extinguir no sentimento nacional, que é constituído por camadas e camadas de gerações, sete séculos de permanência monárquica esmaltada de vitórias militares - em série que começa em Ourique -, de vitórias diplomáticas, de constância católica, e da obra prodigiosa dos descobrimentos e conquistas." - Alfredo Pimenta, in, "Três Verdades Vencidas"